Prostitutas e Filhos

Usar prostíbulos para lavar dinheiro da corrupção me faz lembrar história divertida.

O Mugui era a boate na Augusta pobre, no começo dos anos 70, onde, como dizia Juca Chaves, os meninos maus das famílias boas iam encontrar as meninas boas das famílias más (meninas é eufemismo meu , já que se tratava mesmo de profissionais; profissionais bem jovens, em início de carreira, mas profissionais). Pois bem, no Mugui, Moria, meu grande amigo até hoje, sujeito boa pinta e de boa prosa, travava animado papo com uma delas. A moça boa, também tinha boa conversa e, ao que tudo indicava, não era de família tão má quanto preconizava Juca Chaves.

Meu amigo, então, quis saber como ela explicava pro pai a grana que ganhava e que lhe permitia levar o vidão que levava. Tal qual os políticos que recentemente usaram coisa menos ilegal para justificar coisa muito ilegal, corrupção braba em bom português, a moça foi taxativa:

– Eu digo pra ele que sou contrabandista.

Como se vê, o artifício das prostitutas de outrora são semelhantes aos usados pelos filhos delas de hoje!!!

Búfalos no Cinema; nas locadoras, desconsideração

Nunca fui grande fã de vídeo nem de DVD.

Não tenho qualquer coisa contra a Blockbuster, propriamente dita, a não ser o fato de a primeira loja de S. Paulo ter se instalado onde funcionava o Blends, formidável reduto para se conhecer mulheres legais que quase sempre estavam a fim do que os homens também queriam. No Blends não havia beldades como Gisele Bundchen, mas, como eu digo, também não sou Leonardo De Caprio…

Voltando aos DVDs. Mesmo tendo que ficar pulando de cadeira em cadeira no cinema para fugir dos búfalos que não param de conversar ,de soltar jatos de lanternas de celular nos olhos dos vizinhos e muito menos de comer pipoca, fazendo barulho com o papel, ainda não me acostumei a ver filmes em dvds.

No fim de semana, fui arrastado para uma Blockbuster. Conforme informa o site: “A BLOCKBUSTER é atualmente a maior rede mundial em locação de filmes. Iniciou suas atividades em 1985 inaugurando a sua primeira loja na cidade de Dallas …”

Apesar de tanta grandeza e tanta experiência, o que pude observar na Filial do Brooklin no sábado (23/5) era a falta de consideração e de respeito pela clientela. As sinopses dos filmes que existem nas Contra-capas das embalagens estavam quase todas dobradas, o que tornava impossível a leitura. Nas prateleiras, ao invés de estarem expostos os diversos títulos um ao lado do outro, como o espaço era pouco para a quantidade, caixas diferentes eram colocadas umas na frente das outras. Desse modo, era impossível ter visão minimamente razoável do que estava sendo oferecido.

Usuário mais assíduo de DVD me disse que muitos DVDs vêm com traillers, e outros não informam na Capa a duração do filme principal. Isso acontece com produtos de diversas locadoras.

É assim que funciona. O cidadão perde um bar fabuloso; em seu lugar instala-se prestigiosa rede multinacional que oferece serviço capenga!!!

Será que nos EUA também é esse o padrão da Blockbuster??? Lembrando sempre que franquia pressupõe atendimento uniforme em qualquer loja franqueada da rede!!!

Tentei mandar esse texto para a Blockbuster se pronunciar, mas em nenhum site consegui postar. De qualquer maneira, se a Empresa quiser mostrar o seu lado, é só fazer um comentário no Blog que darei o devido destaque e me manifestarei a respeito da explicação.

Parada Gay, historinha engraçada

Parada Gay, poucos anos atrás. Desde a primeira, fui a algumas edições. Som legal, muita alegria e, além de tudo, não custa nada prestigiar. Lembro-me quando queriam bater o récorde mundial de público. Além do som, havia a meta a ser cumprida. Fui até mais para fazer número e ajudar no récorde, que acabou mesmo sendo batido.

Pois bem, em uma das vezes, de dentro do carro, perto da Rua Cubatão, onde, segundo meus cáulculos, deveria estar a marcha naquele momento, pergunto para um grupo de gays que vinha caminhando se o pessoal ainda permanecia pelas redondezas. Eles me informam que a marcha já devia ter chegado ao ponto final, na República, onde seriam encerrados os festejos.

Pensando em voz alta, lastimo. Um deles consola:

– Não desiste não. Corre lá, quem sabe cê ainda não arranja um namoradinho!!!

Divertindo-me muito, nos dias seguintes, contei para todo mundo o episódio.

Embora pouco esteja ligando para o que pensem ou não pensem de mim, por via das dúvidas, na parada de amanhã, vou junto com a minha namorada.

Lei de Brincadeira

A lei que proíbe o fumo onde ele já é proibido (agora com multa, tá certo) e que deixa de fora restaurantes, bares e outros lugares fechados, onde o cidadão passa mais tempo, me obriga a repetir velha gracinha: o homem já chegou à Lua e aqui em S. Paulo, principal estado do Brasil, não se consegue fazer/implantar uma lei que efetivamente proteja o não fumante.
Fazer humor/ironia com tanta palhaçada pipocando na área é até covardia!!! Ou será que os legisladores daqui fizeram uma leitura extremamente burra e parcial de antiga música do Caetano: Proibido proibir???
Outro título de música retrata a patética lei: O que dá pra rir, dá pra chorar (Billy Blanco).

Pensando bem, de nada iria adiantar fazer uma lei mais rígida/abrangente, pois como se costuma dizer, “no Brasil algumas leis pegam e outras não”.

Uma lei contrária a fortes interesses estaria fadada mesmo a não pegar.

DRY MARTINI

A revista da Folha de hoje traz matéria de capa sobre o dry Martini, com direito à receita de um barman. Quem gosta de dry Martini sempre diz que o seu dry Martini é o melhor que existe. Não fujo à regra.

Fiz longo texto há quase um ano aqui no Boca no Trombone sobre o Dry Martini preparado pelo ator Juca de Oliveira na Peça Às Favas com os Escrúpulos. Dizia eu que aquilo não seria um dry Martini e sim um Inunda Martini, tal a quantidade de água que se forma quando preparado daquela maneira.
Quem quiser ler a longa matéria, o link é http://bocanotrombone77.blig.ig.com.br/2007_43.html#post_18984065
A receita de hoje da Revista da Folha também não é perfeita. Gostaria de deixar o site da Revista da Folha, mas não encontrei. Tampouco encontrei qualquer telefone da Redação
Na receita da Folha, faltam detalhes para que o drink saia seco, isto é, sem água, trincando de gelado e até levemente azul.
Abaixo a minha receita, como sempre, com inúmeros detalhes e, em seguida, o saboroso comentário da jornalista-gastrônoma Célia Svevo.
Concluindo, frase minha sobre essa maravilha

DRY MARTINI –

Utensílios para preparar o Dry Martini

– Copo misturador
– Bailarina (a elegante e longa colher de metal)
– Passador (espécie de coador para tirar a água do misturador e para servir a bebida)
-Taça própria para dry Martini, evidentemente
– Pegador de gelo (dispensável, sempre presumindo-se que a mão esteja lavada e sem mto cheiro de sabonete)

Bebidas e ingredientes em geral – Para uma pessoa

– Gim Tranqueray
– Vermute Noilly Prat
– Gelo (cerca de uns doze cubos de gelo
– uma lasquinha de casca de limão

Explicações Necessárias

Aquele medidor de dose de uísque de bares pessoas físicas só devem ter como curiosidade. O medidor é apenas para quem vai cobrar pelo que está oferecendo. Bebidas se servem a olho. No preparo de coquetéis, fala-se em partes. No começo, talvez haja algum desperdício; a partir do terceiro, a precisão começa a aparecer.

Dry Martini bebe-se muito gelado e, paradoxalmente, sempre sem gelo. Para tanto, lá vai o começo da receita, colocar uma ou duas pedras de gelo na taça e girar para que a taça fique gelada.
Colocar umas oito pedras de gelo no Copo misturador (copão alto) e mexer com a bailarina para que o copo fique gelado.

Preparo do Dry Martini

Jogar fora a água que se formou no copo misturador. Coloca-se o passador e deseja-se essa água no balde de gelo.

Jogar fora o gelo – e água que se formou – na taça.

Despejar o gim sobre os cubos de gelo. Colocar o Vermute Noilly Prat – a olho – 1/7 da quantidade que usou de gim – . Misturar suavemente com a bailarina para gelar bem. Colocar o passador e despejar o dry Martini na Taça.

Torcer a casquinha de limão e por na taça.

Beber e usufruir muito!!!
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PERFEITO COMENTÁRIO DA CÉLIA SVEVO

“Reza a lenda que a Rainha Mãe (legendária e mais simpática figura da monarquia britânica, mãe de Elizabeth II) procedia da seguinte forma: gelava o copo com gelo e descartava. Na seqüência pingava algumas gotas de vermute e as descartava igualmente, sacudindo a taça vigorosamente em movimento de centrifugação. Para garantir, é claro, que TODO o excesso sumisse de sua vista. Só então juntava o gim. Então sorvia.
Devia ter suas razões. E viveu alegremente, semi-ébria, até os 101 anos.”

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MAIS PERTINENTES COMENTÁRIOS, RECEITAS E FRASE

O médico Flávio Generoso, amante dos coquetéis, disse que um conhecido tinha descoberto a quantidade exata que se coloca de vermute no Dry Martini. Explicava o amigo do Generoso:

– Pega-se uma garrafa de sifão, Noilly Prats, o melhor Martini que existe. Tem que ser sifão e tem que ser Noilly Prat. Coloca-se na garrafa de sifão um pouco de Martini. Vira-se para trás e espirra vermute na parede. É exatamente essa a quantidade de Martini que leva um bom dry Martini.

Danuza Leão é igualmente radical e precisa. Diz ela que a quantidade certa de Martini no coquetel é a seguinte:

– Pega-se o copo misturador com gelo e gim, aproxima-se da boca e sussurra-se: Martini. É o suficiente!!!
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Definitivamente, uma bebida fabulosa. Tenho duas frases. Coloco só uma:

– O mundo não é uma grande taça de Dry Martini. Infelizmente.

CALÇADAS DECENTES “ECONOMIZAM” ORTOPEDISTAS

Ronaldo Pereira da Silva Jr e Anderson Patric Joaquim, profissionais do mercado financeiro, têm por hobby fotografar calçadas de S. Paulo. Diz Ronaldo: “Descobri que é possível revelar a alma de uma cidade através das suas calçadas.” Ao longo desse trabalho, eles vão elaborando sofisticadas conclusões.

Luis Domingues, arquiteto conhecido meu, a respeito do estado em que se encontram as calçadas, há cerca de cinco anos, equacionou a coisa de maneira muito simples. Dizia ele: “Com alguns milhares de Reais, o Poder Público pode recuperar calçadas de um bairro inteiro. A conta de Hospital/ortopedistas que o INSS vai pagar para internar uma única pessoa que tenha se acidentado em uma calçada esburacada é muito maior.”

Vejo que a Prefeitura tem se empenhado bastante em refazer as calçadas de Pinheiros. Até por uma questão de economia e bom senso, esse trabalho deve ser estendido para toda a cidade. Entretanto, além de determinar as obras, é fundamental ter fiscais sérios vigilantes. No mesmo bairro de Pinheiros, no cruzamento da Pedroso de Morais e Teodoro Sampaio, calçadas recém-recuperadas já apresentam irregularidades/pequenos degraus nas tampas de bueiros e de cabos subterrâneos. Esses desníveis podem derrubar cidadãos, que vão fazer o INSS gastar uma fortuna… Assim não adianta nada…

Em tempo, um dos fotógrafos documentaristas citados na abertura deste texto, durante o trabalho de campo, tropeçou em um buraco na calçada e se estatelou no chão.

SAPATAS DO TÊNIS E DA MPB

No vestiário do clube, conhecido, tenista de fim de semana, me diz que tem jogo de campeonato a seguir. Pergunto o nome do adversário. Ele me aponta para o sujeito ao nosso lado.

Lembrei-me de episódio do tênis de verdade.

A bonita e sensual Gabriela Sabatini confessou que sempre chegava uniformizada aos jogos, preocupada com o eventual assédio de outras jogadoras.

– Tomar banho após as partidas??? Isso nunca nem me passou pela cabeça!!! – dizia ela.

NA MPB

Segundo a lenda, famosa e bela cantora contemporânea da nossa música popular estava se apresentando para platéia razoavelmente pequena. Um idiota grita:

– Sapatona!!!

Tranqüilamente, a cantora pára a música, se dirige ao infeliz e desafia:

– Deixa sua mulher passar três dias comigo; garanto que nunca mais ela volta pra você.

INFERNO NOSSO DE CADA DIA

O cidadão comum, ingênuo, entra com conta de luz, água, telefone, etc na Nossa Caixa, Nosso Banco para efetuar o pagamento. Quando, finalmente, chega sua vez, o Caixa informa-o de que a Nossa Caixa, Nosso Banco, apesar de tanto Nosso no Nome, não aceita esse tipo de pagamento. Mesmo que o “candidato” se disponha a pagar em dinheiro vivo.

Aí o cidadão fala com a Gerente que reitera a proibição. Reitera a proibição, mas dá alternativa excessivamente prática. A alternativa tem o bonito nome de Correspondente bancário. O correspondente bancário seria um estabelecimento comercial que, através de convênio com a Nossa Caixa (Nossa???), se digna Receber contas de água, luz, etc. Depois de uns 10 minutos de pesquisa, funcionários graduados da Nossa Caixa da Avenida Pedroso de Morais, em SP, informam que há 2 correspondentes bancários nas Proximidades – ambos a 1,5 km de distância dali. Aliás, presenciei outro cliente/cidadão nessa agência dar verdadeiro show porque se sentiu abusado com o excesso de burocracia de que estava sendo vítima (na manhã de hoje – 9/5/08 – é só confirmar!!! )

Bancos comerciais vizinhos aceitam esse tipo de Pagamento. Em um desses bancos vizinhos, fui informado por simpático funcionário de que norma /portaria do Banco Central, ou seja lá o nome que tenha, obriga bancos comerciais a receber esse tipo de conta.

No Site do Banco Central, não é fácil descobrir isso. Gastei mais de uma hora ligando para escritórios aqui de S. Paulo e até em Brasília, pagando Impulsos de Interurbano, e também não obtive qualquer confirmação.

Ou seja, pagar uma simples conta em Entidade Oficial, bem como obter esclarecimentos em idem Instituição Oficial transformam-se em absurdos inconcebíveis até para Kafka. Aliás, diria que se trata de uma situação metakafka. Para reclamar/ser esclarecido a respeito de um absurdo você encontra novo absurdo/labirinto.

Brasil, Um País de Todos???
De todos absurdos/afrontas!!!

Em Defesa de um Certo Medo

Quando publiquei aqui no Boca no Trombone
Liberdade é uma Coisa; Barbárie é outra, http://bocanotrombone77.blig.ig.com.br/2008_06.html#post_19062956 a respeito do comportamento absurdo das pessoas no cinema, meu amigo Armando de Oliveira Neto, Médico Psiquiatra, Professor/Supervisor pela Federação Brasileira de Psicodrama, entre outras atividades,enviou comentário explicando que a causa daquilo era a falta (ausência) do medo. Escreveu ele:

(…) Desenvolvo uma hipótese que a falência das estruturas sociais, aqui e lá fora também, é creditada ao desaparecimento do MEDO: não se tem mais medo de nada, as crianças do bicho papão, do homem do saco; o religioso não é mais um temente a Deus; as leis não punem e por aí caminham minhas reflexões. Se for de seu interesse poderei detalhá-las oportunamente”

Imediatamente, respondi que era sim de meu interesse e que tinha certeza de que os leitores do Boca no Troambone ficariam contentes em poder ler abalizados comentários de competente profissional da área. Generoso, ele acaba de enviar seu artigo, cuja íntegra segue abaixo.

É longo. É ótimo!!!

Em Defesa De Um Certo Medo
por Armando de Oliveira Neto.

Esta reflexão teve origem durante atividade de orientação de acompanhantes (pais, avós, tios, etc.) de crianças internadas em hospital pediátrico de grande porte, na capital de São Paulo.
Uma das mais recorrentes queixas devia-se ao comportamento de crianças e adolescentes que eram apresentadas como malcriados, agressivos, desrespeitadores e/ou outras queixas similares.
Durante o levantamento de dados clínicos, salientava-se uma postura parental comum a todos eles: a falta do exercício de um certo pátrio poder. (grifo do Boca no Trombone)
Como conseqüência, as crianças não incorporavam noções como limites, disciplina, ordem ou respeito, tendo, como ponto comum, a não articulação interna do significado da palavra NÃO.
Os conflitos de relacionamento surgiam como resultado direto desta bipolaridade: de um lado as crianças que querem e de outro os pais que não deixam e, pelos relatos apresentados, havia vitória, com indiscutível vantagem, para as primeiras.
Ao se perguntar “o que há de errado nesta situação?”, originaram reflexões que são apresentadas a seguir e que caminha sobre a questão do MEDO.

Durante o processo de adaptação das espécies animais, um elemento organizador dos comportamentos é o medo.
Assim temos que todo comportamento de proteção evitatório da caça em relação ao predador, o chamado instinto de preservação, é originário do medo.
Até aqui, nenhuma novidade, mas o que nos interessa é a compreensão do medo enquanto organizador das vivências sociais. Desta forma, todo animal que vive em grupos, como os lobos, os leões, as hienas, os cachorros, os elefantes, as gralhas, as galinhas, etc,, desenvolve uma estratégia adaptativa que é a organização interna em termos de uma rígida hierarquia, denominando-se alfa, o indivíduo, ou casal, que domina o grupo.
Esta dominância tem vários objetivos, como por exemplo: entre os dingos e os lobos, somente o casal alfa se reproduz e desta forma garante-se que todos os esforços da matilha são dirigidos ao sucesso da sobrevivência dos filhotes. Já entre os elefantes, a matriarca organiza as marchas em busca de alimento e água, pelas savanas e florestas, apoiada pela excelente memória dos nichos e poços. As galinhas de maior posição hierárquica, as “bicadoras”, mais fortes e lutadoras, tem o direito de dormir nos galhos superiores das árvores, o que lhes facilita a sobrevivência em caso de ataque de raposas, cobras ou outros predadores.
Compete ao alfa a escolha da presa a ser perseguida, como acontece com os lobos, e toda a alcatéia o segue sem titubeios: seria uma grande confusão se cada um atacasse várias presas em potencial, provavelmente resultando em fracasso com risco para a própria sobrevivência.
O elemento que sustenta esta estrutura social é o medo: todos os integrantes do bando têm medo, imposto pela força e luta – às vezes a custa da própria vida – do indivíduo alfa e se algum integrante tentar arrebatar esta posição, terá que ser pela luta, pois afinal aquele não estará disposto a perder a liderança e a melhor oportunidade de reproduzir seu material genético de graça.
Pensando nossos antepassados, desde os tempos de Lucy, também nos organizamos com a mesma finalidade: sobrevivência da espécie. (Grifo do Boca)
Embora a disponibilidade sexual das fêmeas naqueles grupos primeiros – fato só observado também nos bonomos – pudesse afastar a tese da replicação genética individual, dando origem a cooperação, poder-se-ia atribuir ao homem alfa a organização em termos de defesa de território, conquista de outros, escolha da caça-alvo, etc.
E novamente aparece o medo-organizador!
Com o aparecimento da cultura, este medo foi moldurado pelo conceito de respeito . Assim passou-se a respeitar o alfa que, depois da noção de divindade, era personificado pelos sacerdotes, representantes diretos dos deuses na terra.
O passo seguinte foi a criação da figura dos reis, sempre apoiado, convenientemente, pelos sacerdotes, com os quais muitas vezes disputavam o poder terreno.
E assim caminhou a humanidade: o povo obedecia por respeito/medo aos Nabucodonosores, Darios, Alexandres e Césares, trabalhando na construção das pirâmides, seguindo seus líderes pelo deserto, combatendo nas Cruzadas, morrendo pelos reis, papas, barões e condes, Napoleões, Czares, Hitleres, Ozamas e aí por diante.
Na religião, dizia-se que o indivíduo era temente a Deus. Cultivava-se a obediência, geralmente quase cega, provada pelos rituais de iniciação, consolidadas pelas Ordens Religiosas de Cavalaria, aos livros sagrados, que eram considerados intocáveis e inquestionáveis.
O senhor feudal era servido com a própria vida, tanto pelo camponês como pelo samurai.
Repetia-se, de várias formas, o cerimonial ritualístico de confirmação do respeito/medo: as cerimônias religiosas, as pompas palacianas, os desfiles militares, etc..

“Freud, Woodstock, Quartier Latin e Yuri Gagarin”

Freud elaborou o conceito do medo da castração, no Complexo de Édipo, como forma de sustentação de uma certa dinâmica familiar e que teria um caráter universal.
Mas algo não deu certo: a partir de certo momento, como conseqüência direta das Grandes Guerras e a transformação da economia, de raiz agro-pecuária em industrial, com a ascensão do capitalismo e do “jeito americano de vida”, com a cultuação do prazer, na chamada cultura hedonista, sucumbe o respeito/medo, enterrado pelos dólares, hoje euros, drogas, sexo e rock’n roll.
Surge uma dicotomia cultural nítida: a americana e a européia, que pode muito bem ser vislumbrada nos movimentos dos anos 60′: o festival de Woodstock e a explosão do Quartier Latin.
Uma lembrança: Yuri Gagarin, o astronauta russo, quando chegou lá na órbita terrestre, disse em alto e bom tom, para que todos pudessem ouvir, que não via nenhum Deus por lá, embora a frase mais conhecida tivesse sido sobre a cor azul do planeta.
Pronto: naquele dia e hora morria Deus !!!
Uma nova ordem social surgia: a economia, o capital, certamente para a grande decepção daquele astronauta, se hoje fosse vivo.
O respeito cedeu lugar aos anseios de se adquirir o vil metal e ao prazer, inconteste então, que com ele se poderia comprar. O álcool, as drogas ilegais, e as legais também (os antidepressivos, mas este é um capítulo à parte) passaram a ser a ritualística da nova ordem.
Com isso, foi demolida a edificação dos valores da ordem social pautada pelo respeito/medo e em seu lugar surge uma cultura do prazer a qualquer custo.
Lembrando Althusser, os aparelhos ideológicos da manutenção destes novos elementos são:
1. A Família (a criadora): com a “perda” do exercício do pátrio poder, objeto inicial deste singelo escrito, redundando na não identidade do ser-pai e/ou ser-mãe, e o poder que desta situação emana.
2. A Escola (a formadora): com a ruína do sistema educacional público e, de certa maneira o privado também, tendo sido os mestres destituídos de qualquer expressão de poder e despojados do respeito/medo , podendo ser facilmente constatado no contato com professores quer de periferia (pelo medo das represálias à integridade física), quanto de nobres bairros (pela perda do emprego com os salários pagos pelos ricos papais).
3. A Igreja (a mantenedora): aqui podendo ser englobado o Estado, com a notória falência de seus ditames morais ou legais, junto ao cotidiano do cidadão, a tão evidente ausência do Estado em nosso país, desde Brasília até nossas fronteiras distantes.

Por não ser objeto original deste escrito, os dois últimos itens não serão aqui abordados, embora possam ser enfocados da mesma maneira, e assim passemos ao primeiro.

Voltando aos anos 50′: a Pediatria passa a “ressuscitar” as idéias de Freud e Benjamim Spock, acompanhado da versão tupiniquim, edita o livro Meu Filho, Meu Tesouro, com a versão própria do trauma primário. Lembro-me de um episódio pitoresco e exemplificador: com um grupo de colegas da Faculdade, nos anos 60′, fomos almoçar na casa de um professor, psicólogo e analista didata da Sociedade de Psicanálise, hoje estrela freqüente do Fantástico, e que foi indagado o que o teria motivado a nada fazer em relação ao seu filho que passou sorvete de sobremesa por toda sua cabeça, tendo o facultativo respondido que era para não o traumatizar!!! É a bobagem atingido o intestino da Igreja (denominação carinhosa daquela Sociedade).
Pediatras, psicólogos, psiquiatras, pedagogos, educadores, advogados, juízes, conselheiros tutelares passam a levantar esta bandeira, de forma a abolir o medo, e conseqüente respeito, dos processos educacionais. Questionam-se as cantigas e contos infantis, suspendem-se os castigos, substituindo-se pelo não-prêmio.
Logicamente aqui não se trata de maus tratos ou violência às crianças, lembrando os anúncios no Metro de Londres, nos anos 70′, pedindo aos pais que não quebrem, literalmente, seus filhos, com radiografias de fraturas de crianças (algumas chegaram a morrer). Assistimos horrorizados, na atualidade, os acontecimentos da menina Isabella, lembrando das muitas outras crianças que não são noticiadas pelos meios de comunicação. Espero que o leitor perceba que não é sobre isso que aqui trato.
Depois deste passeio pela História, voltemos ao ponto original: a perda do respeito/medo pelas novas gerações de crianças e todas as implicações que daí se originam: não se teme Deus (não há inferno com que se preocupar), Estado (de cada cem crimes cometidos em nosso país somente uma prisão se efetiva), políticos corruptos (nossos eleitores continuam votando neles), etc., lembrando cenas de um filme dos anos 60/70′ – Pequenos Assassinatos.
No âmbito de nossas crianças, não há mais medo do bicho papão, do homem do saco, da mula sem cabeça, e tantas outras figuras da nossa mitologia caipira. Mas também não se temem mais as notas de comportamento escolar, que reprovavam e hoje nem existe mais, nem das noções de pecado, falcatruas ou mesmo crime, tão enaltecidas, não pelas novelas, mas pelas notícias reais do nosso cotidiano.
Nos processos de psicoterapia destes casos tenho assinalado os exageros de uma maternagem, que se revela como nefasta aos filhos, bem expressa pelo dito popular “avós ricos, pais nobres, filhos pobres”.
O que tenho prescrito aos aflitos pais é a Defesa De Um Certo Medo, aqui entendida como base do respeito, envolvendo mudanças de paradigmas dos princípios que norteiam o pátrio poder.
Tecnicamente esta abordagem psicológica respalda-se nos ensinamentos de René Spitz, quanto à gênese do SIM/NÃO, sendo que os detalhes são específicos para cada caso.
Mas às vezes percebo-me como aquele velho rabino que há mais de 90 anos rezava em frente ao Muro, pedindo paz e, indagado pelo repórter como se sentia, respondeu que se sentia falando com um muro…
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Conclusão do Boca no Trombone

Com seu conhecimento científico sofisticado, Armando dá a mesma receita indicada por mim no referido artigo a respeito da barbárie nas salas de cinema. Transcrevo a minha “receita”:

Curioso que numa época em que seguranças imensos fardados de ternos pretos circulam por todo lugar o tempo todo, nas salas de cinema não exista um único funcionário para reprimir e até mesmo expulsar aqueles que incomodam. Se for complicado explicar para o segurança o que incomoda, basta fazer que ele assista àquele filminho de proibições que já existe e dar autoridade para ele expulsar da sala quem estiver desobedecendo o que diz o filminho.

Enquanto meu método não é implantado, ir ao cinema e querer ter ambiente minimamente propício para desfrutar do filme, passa a ser pretensão tão grande quanto querer que a vedete sai da tela e venha se sentar na poltrona ao lado, com direito a um champagne no seu apartamento em seguida!!!

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Armando de Oliveira Neto
Médico Psiquiatra
Aposentado do Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica
Do Hospital do Servidor Público Estadual
Médico Assistente do Hospital Infantil Cândido Fontoura
Professor/Supervisor pela Federação Brasileira de Psicodrama.