A Fabulosa Lanterna Mágica, Não a do Bergman, Mas a dos chineses!!!

Lanterna Mágica é o título da delicada autobiografia do cineasta Ingmar Bergman (Editora Guanabana).

Mas também é algo muito mais prosaico, porém,  formidável;  a saber,  uma lanterna verdadeiramente mágica que funciona sem pilha/bateria e que não é carregada na eletrecidade.  Um verdadeiro Ovo de colombo, mas  de  utilidade indescritível, já que até hoje eu nunca descobri para que serve  colocar um ovo em pé.

Voltando à essa maravilha tecnológica chinesa. Ela é do tamanho de um celular (com a vantagem de não incomodar ninguém,  já que o celular…), além do botão liga/desliga,  conta com um dispositivo de uns cinco centímetros de comprimento  e  dois centimetro de largura que, apertado algumas poucas vezes, fornece energia para a lanterna permanecer ligada por um bom tempo.  Certamente, usa o mesmo princípio do dínamo, que  transforma energia mecânica em energia  eléctrica

Pelo jeito,  estamos assistindo à morte de um meta-inferno (um inferno dentro de outro  inferno).   A energia acaba, o cidadão recorre à lanterna que está toda estrupiada por conta da pilha que vazou.

O preço dessa maravilha??? R$ 5,00.   Encontrei ontem no centro da cidade na 7 de abril, próximo à Rua Marconi.

Comprei logo  meia dúzia,  vou comprar muitas mais: trata-se de presente fabuloso e me fez lembrar historinha ótima.

O divertido e excêntrico escrivão Rubens, talvez em protesto por expurgos e confiscos financeiros, estava com uma quantia razoável de dinheiro.  Não teve dúvidas: comprou tudo em  Talões (caderninhos com 10 folhas) de Zona Azul.  Quando alguém lhe fazia um favor, ele informava que ia dar um pequeno presente/lembrança.   O outro dizia que ele não se incomodasse.  Aí ele tirava meia dúzia de talões do bolso.   Ao perceber  do que se tratava,  nunca houve alguém que, efetivamente, recusasse a oferta.

Tenha em casa uma meia dúzia delas embrulhadas em pacotes transados (que vão custar muito mais do que as próprias lanternas) e quando for convidado para jantar, ao invés de vinhos importados de qualidade duvidosa,  leve essa útil lembrança.

Mulheres, Ah, as Mulheres…!!!

A antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mirian Goldenberg,  em seu artigo na Pag 2 do Caderno Equilíbrio de hoje, suplmento da Folha de S. Paulo, com muita clareza,  mostra a simplicidade dos homens e a complexidade (não seria complicação???, eu indago)  das mulheres.

Ela perguntou para moradores (as) do Rio de Janeiro quais eram os principais problemas que eles/elas  viveram em  seus relacionamentos.  A queixa geral foi: ciúmes e infidelidade.  Homens reclamaram ainda da falta de compreensão.

Mulheres responderam – Tome muito fôlego, caro Leitor:

falta de sinceridade, de diálogo, de amor, de carinho, de romance, de respeito, de admiração, de tesão, de desejo, de paciência, de atenção, de companheirismo, de maturidade, de tempo, de dinheiro, de interesse, de reciprocidade, de sensibilidade, de intensidade, de responsabilidade, de generosidade, de compatibilidade, de segurança, de confiança, de pontualidade, de cumplicidade, de igualdade, de individualidade, de liberdade, de organização, de amizade, de alegria, de paixão, de comunicação, de conversa, de intimidade etc. Algumas ainda afirmaram que falta tudo. Enquanto os homens foram extremamente objetivos e econômicos em suas respostas, algumas mulheres chegaram a anexar e grampear folhas ao questionário para acrescentar mais faltas.

“Um engenheiro de 54 anos disse”: “É impossível dar a uma mulher tudo o que ela quer e de que precisa. Seria perfeito se cada uma tivesse pelo menos três homens. Um para sexo gostoso, romance, paixão. Outro para carinho, proteção, atenção. E o terceiro para conversar, ver filmes inteligentes, ter discussões filosóficas. Acho que seria bom também ter um quarto homem cheio de grana, para pagar todas as contas, as viagens para o exterior, os restaurantes sofisticados, os presentes caros. E um último que saiba fazer elas darem boas risadas. O problema é que elas querem tudo isso e muito mais em um homem só. Que homem pode dar conta de tudo o que uma mulher quer?”

Muitos perguntam: “O que quer uma mulher?”

Uma piadinha de domínio público  responde a pergunta acima: a mulher quer três animais  em casa:  um leão na cama, um Jaguar na garagem e um burro para pagar as contas.

Por essas e por outras, tenho algumas frases sobre comportamento feminino.  Uma delas:  “Não sou tão pretensioso a ponto de querer entender as mulheres”

Voltando para o artigo ”

 Elas (as mulheres) repetem exaustivamente: “Falta homem no mercado”.

Goldenberg  deixa no ar uma pergunta  e não dá a resposta:

“Mas em que mercado é possível encontrar o homem que satisfaça uma mulher?”.

Outra frase minha:

“Muitas mulheres   dizem não ser  muito exigentes.  Querem  um sujeito com a boca do Mick Jagger, o charme do Mastroiani e o dinheiro do Paul Getty. Elas precisam ser avisadas que tais tipos  têm um grave defeito.  São muito indecisos.  Indecisos entre a Caroline e a Stephanie, a Kim Bassinger, a Gisele Bündchen  a Natassia Kinsky…..”

Sem falsa modéstia, suponho ter respondido com precisão, apesar do deboche,  a pergunta com  a qual Goldenberg conclui seu artigo.

União Estável Homossexual – Não Queira se Mostrar Moderninho!!!

Muitíssimo positivo o fato de o Supremo Tribunal Federal,  por unanimidade, ter aprovado a Uninão estável de casais homossexuais.  Parabéns a todos os envolvidos  e à  sociedade brasileira,  que dá um grande passo em direção ao bom senso e ao humanismo do século 21.

Talvez aumente muito o números de gays e casais gays que assumam a relação.  É  bom lembrar sempre o que escreveu anos atrás, com sabedoria,  Danuza Leão a respeito do assunto.  Ela aconselhava  que se tratassem os casais gays com naturalidade, entretando,  sem  querer se mostrar muito  pra frente a ponto de   peguntar se eles não gostariam de ter filhos;  já que a resposta podia ser:

– Não.  Nós estamos evitando!!!

“Ronnie Von, nosso Rei”!!!

A artista que apresentou o programa Todo Seu do Ronnie Von na TV Gazeta ontem era talentosa, simpática e uma bela balzaquiana;  só ouvi seu primeiro nome,  Olga.

Apesar das inegáveis qualidades dela, o fato me fez lembrar o grito das meninas dos programas de auditório do cantor, na  segunda metade dos anos sessenta, quando a imagem do artista, por estratégia  de marketing, era associada  ao Pequeno Príncipe,  do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry.  Lá vai o simpático grito das jovens fãs  de então, hoje tudo sessentona.

– Bi bi fon fon, nosso rei é Ronnie Von

O uso limitado do formidável material das Caixas Pretas

Parece que as duas Caixas Pretas do do Airbus A330 da Air France, que caiu no Oceano Atlântico há quase dois anos, foram encontradas. 

Clarice Berto, proprietária do delicioso e tradicional Bar do Museu, no Centro da Cidade, me disse uma frase a respeito do assunto.  A frase, cuja autoria ela desconhece,  tem  uma lógica curiosa  e bastante humor.  Alguém, ou até muitos,  pode achar que  a gravidade do assunto não permite graças.  Talvez.  

Para quem não pensa assim, lá vai a frase: 

Se as “caixas-pretas” resistem aos maiores desastres aéreos, por que não se fazer os aviões do mesmo material que elas???

Engenheiros, o desafio está aí.  Mãos às calculadoras e pranchetas e, após, mãos à obra!!!

Mataram Bin Laden??? Será???

Curioso, muito curioso.  Os Estados Unidos caçam Bin Laden durante quase 10 anos.  Gastam bilhões de dólares, perdem soldados, causam mortes de civis inocentes. 

Aí anunciam que localizaram o enconderijo de Bin Laden e que o terrorista   foi morto. 

A seguir  é hilário. 

Comunicado oficial/extra oficial/oficioso afirma que, acatando os preceitos da religião mulçulmana, o corpo dele foi imediatamente lançado ao mar. 

Certamente Bin Laden foi morto mesmo.  Os Estados Unidos não correriam o risco de anunciarem sua morte e ele voltar a dar as caras através de fotos e vídeos.

Agora, que tem algo estranho nessa evaporação do corpo de Bin Laden, isso tem!!!

Se o simples anúncio do extermínio do terrorista já foi suficiente para os americanos comemorarem  nas ruas, tal qual brasileiros comemoramos conquista de Copa do Mundo, quão prazer mórbido o povo não teria tido se pudesse   ver fotos, filmes do seu cadáver. 

Por que as autoridades americanas foram mórbidas a ponto de privar a população desse mórbido prazer???

Além disso, é totalmente ao gosto dos meios de comunicação de massa  misturar clima de ficção/novela  e realidade bem batidas no liquidificador com tempero de jornalismo.

Vladimir Propp,  estruturalista russo (1895-1970),  ao estudar mitologia e contos russos,  observou uma estrutura básica  que se repete nas histórias da mitologia:  o herói recebe do rei a missão de sair do seu território, ir ao reino vizinho para matar o dragão ameaçador.  O herói vai lá, mata o dragão, volta coberto de glórias ao seu reino, onde é recebido em festas pelo povo e pelo rei e se casa com a princesa.  Para provar seu feito, ele entrega ao rei, diante da multidão,  um pedaço da cauda do Dragão.

Em tempos modernos, quando existe um celular com câmera para cada habitante do planeta, o exército captura Bin Laden, mata, não tira uma única foto  do inimigo morto, sequer para saciar a morbidez do cidadão comum!!!  

E pior, ao contrário dos heróis da mitologia,  nem mesmo um fio da Barba do Homem foi exibido para provar que a missão foi mesmo cumprida com êxito.

Não dá nem mesmo para argumentar que o objetivo era não permitir que o túmulo dele fosse transformado em local sagrado de peregrinação, pois, conforme os próprios Estados Unidos afirmaram, o costume mulçulmano é atirar o corpo ao mar nesses casos.

Não quero parecer a mãe que foi ver o filho marchar na parada de Sete de Setembro,  e  o filho estava marchando errado.  A mãe:

– Olha lá, tá todo o batalhão fora do passo; só o meu Pedrinho está marchando direito.

No meu caso, é muito pior.  Já que não foi um batalhão que aceitou a coisa, mas sim a humanidade toda!!!

Pior ou não do que a mãe do Pedrinho, continuo achando tudo isso muito estranho…

“Reflexões” (???) Sobre o Dia do Trabalho

Eu não entendo porque no dia do Trabalho  ninguém Trabalha.
(Nesse ano, cai num domingo.  Que pena!!!!)

O dia do Trabalho é o dia da vagabundagem.

É ÓTIMO.  MAS  É UM DIA SÓ!!! Que merda!!!

Precisa mudar tudo.

Precisa ser criado  O  DIA DA VAGABUNDAGEM E ABOLIDO O FERIADO DO  DIA  DO TRABALHO.


No dia da vagabundagem,  SÓ NO DIA DA VAGABUNDAGEM, todo mundo, mas todo mundo mesmo, …tra ba lha ria.  

Seria logo ali na 2. Semana de Janeiro.   Pra gente já ficar logo livre dele; DELE E DO TRABALHO!!!

Os outros dias, aí sim, se chamariam de Dias do Trabalho.  E seriam todos eles dedicados – dedicados ao que???

– À vagabundagem, NATURALMENTE…

E ali pelo finalzinho de dezembro, principalmente, na Bahia, A CHORADEIRA  seria uma só:

–   Que merda, o dia da vagabundagem tá chegando de novo e todo mundo vai ter que trabalhar.  Sorte que no ano que vem cai num domingão!!! 

E o Ponto Facultativo, então????   O que é isso??? 
Esse é que não dá  para entender mesmo!!!!
Algum engraçadinho da década de 70 lançava desafio forte:

– Vai explicar para um Inglês o que é Ponto Facultativo!!!

Se o ponto é FACULTATIVO, ALGUM FUNCIONÁRIO  PODE MUITO
BEM FACULTAR (querer, optar por) BATER O PONTO.
 

É  lógico, se é FACULTATIVO…

Agora, será que o funcionário responsável pelo Ponto também terá FACULTADO POR  BATER O PONTO???

Não creio!!!

Torcendo por um mundo melhor,  com  364 dias por ano de dia do Trabalho E SEM QUALQUER PONTO FACULTATIVO –  ISSO VAI  COMPLICAR DEMAIS A COISA E, PIOR, DAR TRABALHO!!!

O fim dessa hipotética confusão que o Ponto Facultativo pode causar é apenas uma das muitas vantagens  desse novo Calendário Trabalhista.   Nem Getúlio faria melhor!!!

Perguntar não Ofende!!!

Dois comptentes jornalistas na Rádio CBN, por volta das 14,45 horas de hoje, falando sobre as confusões em Brasília. Um deles  começa desenvolvendo um raciocínio com a expressão:

– Política, no sentido ruim da palavra…

Pergunta ( suponho falar em nome de pelo menos mais alguns cidadãos brasileiros):

Existe  política no sentido bom da palavra???

Como dizia personagem de programa humorístico: 

– Perguntar não Ofende!!!

A Mesquinhez Inglesa e a Obrigação de Sustentar o Fausto Real

Sempre me encaficou o fato de o povo Inglês,  tão mão de vaca/pão duro, ser obrigado a sustentar o fausto da Família Real Inglesa.  Sou sujeito absolutamente contra os dois extremos: desperdício e mesquinhez.  

E a experiência de viver durante quase dois meses em casa de família inglesa, onde pagava para me hospedar, me mostrou um povo mesquinho.  Na verdade, em um dos episódios, a dona da casa chegou a ser Absolutamente Desonesta, para não dizer ladra,  comigo.  Outros brasileiros, que estavam nas mesmas condições de hospedagem que eu, me relatavam experiências muito semelhantes.  Ou seja,  o que aconteceu/acontecia comigo  era   regra e não exceção.

Às vésperas de mais esse Teatro Real – casamento do príncipe William –  , talvez valha a pena reler o texto que já publiquei aqui e imaginar, como será que pessoas que surrupiam um ovo, uma fatia de pão de seus hóspedes encaram essa Gastança de Impostos pela Família Real.

Deixo também links desse texto e de outro texto de assunto próximo, porque os comentários valem a pena 

http://bocanotrombone.ig.com.br/2009/03/26/nao-banho-e-mesquinhez-inglesa/

http://bocanotrombone.ig.com.br/2009/03/24/barbudos-x-barbeados-banheira-x-chuveiro/

Uma leitora foi precisa em seu comentário.  Disse algo assim:  a Diferença entre o brasileiro e o Inglês/europeu (acho que ela abrangia a Europa) é que individualmente nós somos limpos e socialmente, somos sujos.  Eles são o contrário disso: socialmente,  limpos; individualmente,  sujos.  A observação é perfeita.

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Lá vai o texto,  já publicado em Setembro de 2009. 

Título:  Não Banho e Mesquinhez Inglesa

Meu post de anteontem sobre barbas, barbudos, banhos de banheiras e não banhos de ingleses recebeu  vários – para os padrões do Boca,  naturalmente – comentários.

Costumo responder cada comentário individualmente.  Para facilitar a coisa e também por  ter percebido que o assunto ingleses ainda não se esgotou,  retomo o tema; conto mais detalhes da minha experiência vivendo  na casa de  uma família classe média típica. Foi bem legal.  Mas notei que diversas coisas curiosas na rotina dos ingleses que também foram lembradas por alguns leitores. http://bocanotrombone.ig.com.br/2009/03/24/barbudos-x-barbeados-banheira-x-chuveiro/ 

Durante os dois meses que passei lá em Bournemouth, cidade ao sul da Inglaterra, próxima a Londres, viajei todos os fins de semana. (saia  sexta à tarde e voltava domingo para dormir). Assim, a questão dos três banhos semanais a que tinha direito foi ligeiramente amenizada.

Ainda no setor higiene,  jamais vi algum dos donos da casa (um casal, mais a filha) com cara de quem tivesse tomado banho.  O único contato que presenciei deles com a água não foi dos mais agradáveis. 

Uma  Uma noite, entro na cozinha e o que vejo???  O dono da casa lavando a cabeça na pia da cozinha.  Na volta ao Brasil, contei isso para meu pai, que comentou com um amigo nosso inglês.  Ele  garantiu que era normal, na Inglaterra, as pessoas lavarem a cabeça na pia da cozinha. O porquê disso não fica claro.  Como disse Caetano, “eu não consigo entender sua lógica.”  Entender ou não entender não tem importância.  Grave é usar a louça e comer comida lavada na pia que também serve para lavar cabeça,  e sabe-se lá se não deixei de ver coisas piores…

Um leitor do Boca fala, até de maneira rude, do mal cheiro das inglesas (leia no comentário do post de ontem)  Ele  está muito bem acompanhado. Famoso e prestigiadíssimo  personagem da política,  tido como mulherengo,  diplomata em Londres, ao responder a uma amiga se havia gostado das Inglesas, foi taxativo:

– São bonitinhas, mas muito mal lavadinhas…
 
Voltando à minha experiência com a família inglesa,  passo aos pequenos  truques, golpinhos que me aplicaram. 

Paguei aqui no Brasil uma determinada quantia para a Escola que freqüentei e outra quantia que foi diretamente para a família que me hospedou.

Está mais do que implícito que um quarto alugado durante o inverno em uma casa na Inglaterra tenha calefação.  Pois não é que a dona de casa me disse que a calefação não estava incluída e que eu deveria pagar.   Não quis brigar e concordei. Ela me deu o valor semanal da calefação. Argumentei que pretendia viajar todos os finais de semana e que preferiria pagar por noite a calefação, quando eu, de fato, estivesse usando.  Ela não concordou.  Cobrava sempre por sete noites, embora só ligasse cinco vezes por semana.

Eu e o Javier, mexicano que também estava ali hospedado,  éramos apenas meios de a dona de casa, landlady, reforçar o orçamento.  Nada além disso.

Perguntou-me ainda se eu queria que ela lavasse minha roupa e já foi logo dando o preço.  Falei que era coisa relativa: como ela já podia dar o preço sem saber quanta roupa seria?  Ela foi clara: esse preço é para a quantidade de roupa  que pessoa normal usa por semana : duas camisas, duas meias e duas cuecas. Agradeci e disse que eu mesmo levaria para a lavanderia.

Curioso é que mesmo quando queria ser simpática e mostrar eficiência, ela era seca e até meio rude.  Elogiei bastante os ovos mexidos do café da manhã. (scramble eggs, certamente escrevi errado) de lá. Imediatamente, me responde:

– Às terças e quintas  (lembro-me que eram exatamente esses os dias) tem.

Sou cara extremamente justo, o que é certo é certo e, como já disse e repeti, detesto desperdício.  A dona da casa pediu que avisasse sempre com antecedência quando fosse viajar no fim de semana, para que ela não comprasse comida para mim.  Perfeito.  Nada de desperdício.

Meu pacote de hospedagem compreendia: quarto de domingo a domingo,  café da manhã e jantar de segunda a sexta e as três refeições do sábado e do domingo. 

Como já  disse,  todos os fins de semana, viajei.  Ou seja, deixei de consumir sete refeições a cada fim-de-semana.  Passei lá seis semanas, logo foram  exatamente 42 refeições que, embora tenham sido pagas, não foram consumidas.
 
Uma noite, durante o jantar, ela me pergunta em que dia eu iria embora.  Falei que seria dali a dois sábados.  Ela diz:

– Pois bem,  o café da manhã do sábado em que você vai embora, você vai ter que me pagar porque a escola só me paga até sexta-feira.

Eu falava legal  inglês e entendi perfeitamente.  Mas, por segurança, confirmei em Portunhol com o mexicano Javier.  Pedi que não comentasse nada, mas lhe disse que iria denunciá-la para a escola. E a escola, muito provavelmente  iria descredenciá-la na mesma hora.  Se eu tivesse consumido todas as refeições previstas, perfeito que ela cobrasse essa extra. 

Detalhe: alguns brasileiros levam lembrancinhas típicas daqui, um anelzinho de água marinha e outras besteiras baratinhas para a dona da casa..  Eu havia levado  três quilos de café da melhor qualidade,  panela própria para esquentar a água, bule, coador e xícaras de porcelana pintadas a mão.  Isso não vem ao caso.  O que conta é que eu deixei de consumir 42 refeições e ela quis me cobrar um ovo, uma torrada e uma xícara de café (aliás, que eu havia lhe dado).

A história acaba assim: fui-me embora na 6. Feira.  Deixei barato, não denunciei na escola e  não teve o quebra-pau anunciado. Nesse momento em que escrevo, acho que agi mal: devia ter denunciado.

Ingleses não são efusivos, abraços e beijos não jorram por lá com parte de cumprimentos.  Mas é lógico que depois de conviver um mês e meio, por mais frio que sejam todos os envolvidos,  na despedida, apertam-se as mãos e até um beijinho e abraço  fazem parte da coisa. 

Eduardo e Marina, brasileiros que iam comigo ao Aeroporto e passaram em casa para me apanhar de táxi, ficaram impressionados porque, já dentro do táxi, limitei-me a um aceno com a cabeça de despedida.

Quatro anos após, morei cerca de quinze dias em casa de família americana.  180º  opostos.  Conto logo mais. 

Para terminar legal, a receita do fabuloso scramble eggs.

Ovos mexidos da Markham Road 103 – endereço da casa  da família em Bournemouth

Fazer uma torrada de pão de forma com manteiga.  Mantê-la quente.
Reservar.

Em uma panelinha pequena, derreter manteiga, quebrar um ovo e, quando começar a fritar, colocar uma colher de leite, diminuir o fogo, por sal e pimenta do reino.  Mexer e quando estiver no ponto (eu gosto mole) colocar sobre a torrada quente.   Comer acompanhado de  café forte servido na xícara grande.  É muito bom!!! Gotinhas de Tabasco, um pouco redundante, já que vai pimenta do reino,  também são bem-vindas (acho que agora bemvindo é tudo junto)!!!

Ovos mexidos da Markham Road 103 – endereço da casa  da família em Bournemouth

Fazer uma torrada de pão de forma com manteiga.  Mantê-la quente.
Reservar.

Em uma panelinha pequena, derreter manteiga, quebrar um ovo e, quando começar a fritar, colocar uma colher de leite, diminuir o fogo, por sal e pimenta do reino.  Mexer e quando estiver no ponto (eu gosto mole) colocar sobre a torrada quente.   Comer acompanhado de  café forte servido na xícara grande.  É muito bom!!! Gotinhas de Tabasco, um pouco redundante, já que vai pimenta do reino,  também são bem-vindas (acho que agora bemvindo é tudo junto)!!!

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Bom casamento e boa diversão para os ingleses, na esperança de que nesses anos que se passaram eles tenham se tornado mais generosos e não submetam mais seus hóspedes a cenas explicitas de roubos de ovos e torradas.  

“Bullying” – Considerações de Um Psiquiatra

Armando de Oliveira Neto, médico psiquiatra, mais uma vez,  colabora com o Boca na tentativa de eluciadar acontecimentos importantes recentes.  Dessa vez, o tema é o “Bullying” que vem sendo considerado a causa do assassinato de 12 alunos em Escola do Rio de Janeiro, há menos de um mês.

O tema é doloroso, complexo e a compreensão do texto não é coisa fácil.  Mas vale a pena a leitura. 

“Considerações a respeito do “Bullying” – Por Armando de Oliveira Neto

Recentes acontecimentos estão sendo relacionados a um comportamento denominado “bullying”, sendo que o mais marcante foi à chacina ocorrida em escola no Realengo, Rio de Janeiro, o que motivou algumas reflexões.

Em nossa língua, pode-se traduzir o termo por bulinação que, em rápida consulta a dicionários, se entende como sendo o ato de provocação com segundas intenções ou mexer em alguma coisa, geralmente associado à temática sexual.

O jovem assassino atribuiu sua hedionda atitude ao fato de ter sido “bulinado” por colegas daquela escola, mas por análises feitas por vários colegas psiquiatras, citando, como exemplo, a do Dr. Guido Palomba, especialista em Medicina Forense, possivelmente tratava-se de resultado de produção psicótica crônica, de provável natureza esquizofrênica. Esta doença mental, quando acomete em tenra idade, produz graves mudanças de comportamento que chamam a atenção pelas bizarrices;  esse qualificativo é  uma marcante característica nesses pacientes, em função da interpretação pessoal e errônea da realidade, sendo a base do sintoma autismo, um dos pilares sintomatológicos psicopatológicos, como conceituou Bleuler.
Com esse colorido de comportamento,  jovens acabam chamando a atenção sobre si, sendo alvos de escárnio, ridicularização, rejeição e agressões morais e até mesmo físicas.

Em continuidade a esse raciocínio não se pode atribuir a causa desse comportamento execrável à bulinação, mas essa associação só tem como objetivo o desvio da atenção de uma análise mais profunda para fatores periféricos e distantes de uma realidade clínica.

A ação dos meios de comunicação, assim como alguns comentários menos embasados, correlacionando os assassinatos à bulinação acaba trazendo desinformação e incremento a posições preconceituosas sobre o tema.
Mas a bulinação também é associada a outras situações que levam a sofrimento psíquico, sendo a versão para crianças e adolescentes do chamado assédio moral.

Pode-se observar que, como é apresentado pelos meios de comunicação, esse foco também apresenta um viés parcial e incompleto, pois se evidencia os efeitos maléficos do indivíduo alvo dessa atitude, com direcionamento à vitimização, como se isso encerrasse a questão.

O “tratamento” seria função do Estado, responsabilizado pelas ações protetoras e evitatória de tal comportamento, o que muito interessa às políticas totalitárias de um certo modelo de atuação de governo, como denunciado por Orwell.

Há outro fator que, a meu ver, é tão ou mais importante para uma mais ampla análise do tema: o bulinado.
Em todos os mamíferos, que produzem vários filhotes e vivem em grupos, suas crias brincam de brigar, cuja finalidade é múltipla: desenvolver a musculatura, o equilíbrio e determinar o posicionamento hierárquico sob o ponto de vista de força e capacidade de luta, principalmente entre os jovens machos.
Nossos filhotes também assim o fazem, o que pode ser facilmente observado e registrado em vários estudos comportamentais, pelo acompanhamento das atividades lúdicas de crianças. Nossa cultura aperfeiçoou esses comportamentos, transformando-os em jogos competitivos, por exemplo.
Infelizmente, por vários fatores que fugiriam dos objetivos da presente peça, alguns jovens não conseguem apreender e aprender comportamentos de ataque e de defesa, tão necessários à adaptação social, com repercussões graves em termos de sofrimento.
Esse pólo, essa faceta, é um dos aspectos fundamentais para o “tratamento” desses jovens: o desenvolvimento de estruturas psicológicas egóicas, com a melhoria da competência dos comportamentos de luta/fuga, por meio de procedimentos técnicos psicoterapêuticos e para isso há a necessidade de reformulação do conceito exclusivo de vitimização, com o reposicionamento do jovem no sentido de inclusão de outro paradigma, isto é, a conscientização de que são também co-autores dessa situação, assinalando-se que não se excluiria as ações anteriormente apontadas nesse escrito.

Outro equívoco que se observa na imprensa leiga é a ideia que os indivíduos que sofreram bulinação desenvolvem doenças mentais, mas, para se chegar a esta conclusão, seria necessário um estudo da personalidade pré-mórbida, ou seja, jovens com indicativos de transtornos mentais, como personalidades que se desenvolvem com insegurança, imaturidade, dependência emocional, retraimento, medo, etc., teriam na bulinação um fator desencadeante e não causal.

Armando de Oliveira Neto
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*Armando de Oliveira Neto
Médico Psiquiatra
Aposentado do Serviço de Psiquiatria e Psicologia Médica
Do Hospital do Servidor Público Estadual
Médico Assistente do Hospital Infantil Cândido Fontoura
Professor/Supervisor pela Federação Brasileira de Psicodrama