ESCREVER

Amigo, que conheci por conta do Boca, que também tem  blog, escreve muito, muito  pouco.  E isso me fez lembrar fatos/situações/casos  sobre o escrever.

Escrever é difícil e trabalhoso.  Tanto que Cortazar, preciso,  disse “escreve-se com a pena e corta-se com o machado”.  Infelizmente é assim mesmo.

Escrever de forma concisa  é mais trabalhoso ainda. É famosa a história  do  o editor que  ligou para um intelectual e pediu artigo sobre determinado assunto.  O sujeito disse que escreveria três laudas.  O editor disse que queria apenas duas.  Resposta do articulista.

– Eu não tenho tempo para escrever duas laudas.

Vinte anos atrás, fiz alguns cursos de criação literária.  Nesses cursos,  apenas eu e um outro  levamos a coisa a sério e produzimos contos bem razoáveis (alguns dos meus estão aqui no Blog – categoria contos).  Os outros participantes do curso ficaram enrolando e não escreveram praticamente nada.  Um deles, arquiteto, sujeito inteligente e muito  legal, literalmente, não escreveu uma única  letra.  Dizia sempre:

– Está tudo aqui na minha cabeça.

Repetindo, não escreveu uma única letra  o curso inteiro.

É famosa também a história de um jornalista que ficou cerca de seis meses em um grande jornal.  Graças a ele, foram produzidas excelentes reportagens durante sua   curta permanência  no jornal.

Quando foi embora, descobriram que a máquina dele não tinha fita.  Ou seja, durante o tempo em que permaneceu na redação,  ele também, tal qual meu conhecido do curso, não escreveu uma única letra.

Para compensar esses casos curiosos de negos brilhantes. Logo que eu acabei a Faculdade, era copy/sub-editor de esportes em jornal popular.   Arrumava os textos dos repórteres e os que chegavam  das Agências Via Telex,  dava títulos, fazia legenda para fotos; basicamente, isso.

Minha máquina de escrever naquele jornal tinha uma fita azul.  Pois bem, chega para minha página  reportagem de um repórter relativamente idoso, que,  por ironia, tinha o mesmo nome de um dos maiores escritores do país.  Jornalista das antigas, que começou lá de baixo e chegou a repórter.  Os textos dele começavam falando da unha encravada de um determinado jogador de um time, passavam  pela estratégia de jogo do técnico, e terminavam  com o empréstimo de milhões de reais (a moeda era outra) que o presidente do clube havia conseguido.  Tudo isso, sem um único ponto final.  Da unha encravada ao empréstimo, as coisas iam se atropelando e nada de ponto final para separar assuntos.  Parágrafo, então, acho que ele nem sabia do que se tratava. Era um tal de por outro lado,  no entanto, dando continuidade.  Absurdo.

Voltando à minha máquina de escrever  que tinha tinta azul.  Pego duas laudas, reescrevo tudo , com pontuação, naturalmente.  Por milagre, dava para aproveitar as duas últimas linhas do velho repórter da velha guarda.  Ao final do meu texto, corto com estilete as duas linhas  do cara e colo com cola ao final do que eu  havia reescrito.  Explicação necessária porque hoje copiar e colar são coisas diferentes, feitas sem tesoura;  menos ainda, cola.

O sujeito percebeu, não gostou e veio falar comigo.  Delicadamente expliquei que os assuntos precisariam estar mais separados e consegui contornar a coisa.

Outro repórter da minha idade, que já estava lá há mais tempo, me viu explicando para o cara e foi direto:

– Faz o que tem que fazer e não explica nada.  Senão você vai ficar o dia inteiro explicando porque esses caras escrevem muito mal mesmo (usou termo mais real – escrevem mal para ca…).  Não explica!  Corta!

Escritor famoso, cujo nome não me lembro, conta que para compor uma música, pintar um quadro, o sujeito precisa ter instrumentos, pincéis e telas e noções e técnicas  mínima para produzir algo, por pior que seja.  Já escrever, segundo ele, todo mundo acha que escreve.  Resultado, é uma infinidade de gente  querendo  lhe mostrar algo que escreveu.  99% de coisas horrorosas.

Finalmente, parente minha,  mil anos atrás, em data como dia das mães, dia dos pais, escreveu  texto daqueles bem cheio de chavões e o texto foi publicado em jornal de bastante prestígio de S. Paulo.  Outro parente, sujeito muito gozador, não teve dúvidas.  Ligou para ela,  disfarçou a voz e disse que era o dono do Jornal que estava telefonando para dar parabéns pelo artigo.  O plano do gozador era fazer a piada, dizer que quem estava falando era ele, e não diretor algum do jornal,  e dar boas risadas junto com nossa parente.  Acontece que ela foi se entusiasmando, se entusiasmando tanto, que o parente terminou a conversa sem se identificar.  Até hoje, ela tem certeza de que o diretor do jornal telefonou para saudá-la pelo brilhante texto.

Votando ao meu amigo do começo que tem um blog e escreve muito pouco.  Se a pessoa quer escrever, tem que escrever, escrever  sobre tudo.  Não adianta ficar esperando o assunto perfeito.  E tem que escrever mesmo, para não ficar igual ao meu outro amigo que passou o curso inteiro de criação literária e não escreveu uma única letra.  E ,  finalmente, tem que ficar atento para não ser vítima de trotes.

1 pensou em “ESCREVER

  1. Caro Mayr, estou recomeçando a praticar ,e mesmo a caligrafia ilegível até a mim,vem se tornando algo mais que garrancho indecifravel.
    Muito por conta da inspiração de blogueiros que levam a sério seu trabalho, e pelo texto no qual voce ,uma vez mais, demonstrou sua amizade por este blogueiro relapso e procrastinador aqui.
    Texto no feitio que gosto: extenso, recheado de reminiscencias ,um Paulo Mayr caprichado.

    Grande abraço do Pawlow
    ++++++

    Caro Pawlow:

    E, então, leitores do Boca, o amigo citado aqui é o Pawlow que deixa esse simpático comentário.
    Como ele mesmo se define, um procrastinador inveterado. Eu também sou dos que adiam tarefas chatas, infelizmente. Mas tento me corrigir.

    Ainda com os leitores, conheçam o Blog dele, cliquem aqui. Se não der para ver tudo, leiam ao menos o sensível texto dele sobre Finados No Bonfim, cliquem aqu

    Agora, com Pawlow – amigo, obrigado pelos elogios e dedos às teclas, hein!!!

    Abraços

    Paulo Mayr

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